
confesso, em voz baixa e tinta rala, que me sinto baldo de préstimo. as horas passam como procissão cansada, e eu, sabendo-me capaz de obra mais alta, quedo-me em pasmo e inércia, qual sino sem badalo.
sei, por alvitre íntimo, que posso fazer melhor, e isto me pesa como cota de ferro. não me falta engenho nem vontade em promessa; falta-me o mover do braço, o passo primeiro, o romper do nevoeiro que me prende.
destarte, nasce um escárnio mudo contra mim mesmo: como posso ser fonte e deserto ao mesmo tempo? a resposta não vem, e a espera se alonga, assaz amarga, como pão dormido.
porventura chamam isto de preguiça, mas sinto ser outra cousa, mais nefanda e sutil. é uma fadiga do ânimo, um cansaço antes da jornada, um medo travestido de prudência.
outrossim, o mundo não cessa de cobrar, e eu não cesso de prometer. faço votos em segredo, juro reformas ao cair da noite, e ao romper da aurora torno-me o mesmo, perdulário de tempo e parco de ação.
há dias em que me vejo capaz de levantar torres com um sopro, e ainda assim me deito no chão. essa contradição me rói, pois não é ignorância, é ciência sem uso, lâmina sem fio.
sinto-me inútil não por carecer de dons, mas por não os empregar. tal qual escriba que sabe as letras e recusa o pergaminho, fico a mirar o vazio e chamá-lo de destino.
mister dizer que isto não é lamento vã, mas confissão crua. dói saber que a melhor versão de mim me observa, paciente e severa, aguardando que eu a convoque.
quiçá falte-me coragem para falhar, e por isso falho em tentar. guardo-me inteiro por temor de me gastar, e nessa economia tola perco tudo.
assim sigo, entre o saber e o não fazer, pedindo a mim mesmo um empurrão honesto. quando vier, que seja sem trombetas: basta um passo, pequeno e lídimo, para quebrar o encanto desta estagnação.