You're gonna become an old man, filled with regret, waiting to die alone.

os conselhos que escolhi não seguir

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houve quem me falasse como quem se crê portador da razão, revestindo o próprio juízo de cuidado e chamando de prudência aquilo que mais se assemelhava a desconfiança. escutei em silêncio, não por concordância, mas por respeito, ainda que já me fosse pesado o modo com que tais palavras me eram lançadas.

disse-me essa pessoa que eu deveria afastar-me, como se o afeto fosse coisa contagiosa, como se amar fosse um desatino do qual só a distância pudesse salvar-me. falou com firmeza excessiva, sem medir tom ou intenção, como se meu alvedrio fosse detalhe irrelevante diante da convicção alheia.

não houve desvelo algum na forma. não houve cuidado. o conselho veio bruto, quase como agravo, e me foi entregue não como sugestão, mas como sentença. estranhei que alguém julgasse conhecer melhor que eu os limites do que sinto, e mais ainda que acreditasse poder conduzir-me por eles à força.

escutei tudo, é verdade. pesei cada palavra, considerei cada advertência, como se examina uma lâmina antes de tocá-la. e ainda assim, destarte, recusei. não por teimosia cega, mas porque nada do que me foi dito fazia justiça ao que vivo.

pois não se tratava de uma quimera passageira, nem de impulso vazio. havia, e há, fundamento no que sinto. há nela uma presença que não exige, mas permanece; um modo de estar no mundo que me alcança sem ruído e sem pressa.

há uma calma que me encontra quando a observo, um cuidado nos gestos pequenos, quase invisíveis, que não se aprende nem se finge. é nesses detalhes, e não nos discursos alheios, que reconheço aquilo que me prende e me orienta.

afastar-me seria negar essa verdade em nome de um zelo que não me pertence. seria ceder à voz de outrem e silenciar a minha própria, como se amar fosse erro maior do que viver à revelia de si.

não ignoro que conselhos, por vezes, nascem de preocupação sincera. mas há diferença entre alertar e impor, entre guiar e empurrar. e quando a forma fere mais que o conteúdo, algo já se perdeu no caminho.

não devo obediência a advertências que me pedem abandono do que me faz inteiro. não devo desculpas por escolher ficar onde meu afeto se reconhece e se sustenta, mesmo que isso desagrade aos que observam de fora.

assim, se erro há em minha decisão, erro com plena consciência. pois entre seguir conselhos que não me cabem e permanecer fiel ao que sinto, escolhi este último. e não me arrependo dos conselhos que escolhi não seguir.