You're gonna become an old man, filled with regret, waiting to die alone.

minha transgeneridade e a sensação constante de performance

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esse corpo é um apartamento alheio onde fui obrigado a morar. as paredes não têm a cor que eu escolheria, os rumos dos corredores são um enigma, e os espelhos refletem um estranho com um rosto emprestado. desde sempre, sou um inquilino desconfortável desta forma, tentando, a cada dia, rearranjar os móveis da existência para que ela, por fim, assemelhe-se a um lar.

cada manhã não é um despertar, mas um preparativo para a cena. visto-me com cuidado, ajustando os panos que moldam esta silhueta, para que ela se aproxime, ainda que de longe, da figura que minha alma reclama. aprendi a postura, o timbre contido da voz, o gesto comedido. tornei-me um artífice meticuloso de mim mesmo, um escultor de uma estátua que nunca está completa. é uma performance minuciosa, ensaiada diante do espelho, repetida para o mundo.

cada reconhecimento obtido, cada "menino" ouvido ao longe, é uma agridoce vitória. sinto um alívio breve, seguido de uma solidão imensa. pois foi conquistado não pela simples verdade do ser, mas pela precisão da representação. temo sempre o momento do deslize, da falha no script, da máscara que escorrega e revela, por um segundo, o rosto assustado do menino que lá dentro ainda não foi visto.

por vezes, percebo-me ensaiando minha própria vida. calibro minha voz, regulo minha postura, atento-me às sutis coreografias sociais que definem o que consideram "ser homem". e, mesmo quando creio executá-las com maestria, o espectro da dúvida me ronda. questiono se sou visto de fato ou apenas tolerado; se sou reconhecido ou apenas decifrado; se sou acolhido ou apenas observado com cortesia distante.

caminho pelas ruas e vejo os outros homens, parecendo navegar suas masculinidades com uma naturalidade que me é tão alheia quanto a linguagem dos astros. pergunto-me, em segredo, se também eles atuam, se também carregam este peso de expectativas. ou se somente eu, uma alma errante num mapa corporal trocado, preciso lembrar-me de cada movimento, de cada nuance, para ser concedido o simples direito de existir como sou.

há uma melancolia perene nisso: saber que a essência mais pura, aquele núcleo silencioso e firme que é o eu, precisa ser negociada diariamente através de gestos, palavras e aparências. sou um fantasma que anseia por tangibilidade, um homem cuja verdade mais íntima vive sob a constante sombra da interpretação.

e assim sigo, entre o que sou e o que preciso performar para que o mundo, por fim, me veja. é uma saudade de um lugar que nunca visitei, o próprio corpo. uma nostalgia de um abraço que fosse dado não ao personagem, mas ao ator, cansado, nos bastidores de sua própria existência.