
penso em vós todos os dias, como quem carrega um hábito antigo que já não sabe largar. não é decisão, tampouco escolha consciente; é coisa que acontece sozinha, à revelia da razão. desperto e lá estais, oculto nas primeiras ideias da manhã, e ao recolher-me à noite percebo que, mesmo cansado, meu espírito ainda vos visita, como se não houvesse distância bastante entre o pensar e o sentir.
já tentei, confesso, impor silêncio a tais lembranças. fiz pactos comigo mesmo, tracei votos de esquecimento, prometi aos céus que vos deixaria no passado, onde supostamente deveríeis repousar. mas é inútil lutar contra o que se entranhou na alma. quanto mais esforço emprego em afastar-vos, mais clara se faz a vossa presença, como sombra que cresce quando se tenta apagá-la à luz.
lembro-me, com certa ironia melancólica, de palavras outrora ditas por vanessa da mata: “peço tanto a deus para lhe esquecer, mas só de pedir me lembro”. tal verso, simples e certeiro, descreve com exatidão meu estado. pois toda prece que faço para libertar-me de vós termina por vos invocar, e cada tentativa de esquecimento converte-se em novo ato de lembrança.
assim sigo, entre a vontade de cessar e a incapacidade de fazê-lo. não por fraqueza de caráter, mas porque há afetos que não obedecem a ordens nem se submetem à lógica. pensar em vós tornou-se parte do meu dia, como o correr das horas ou o mudar das estações. e se isto é falha ou virtude, já não me atrevo a julgar. sei apenas que, mesmo tentando não pensar, penso; mesmo tentando esquecer, recordo; e nesse paradoxo, continuo.