
existem frases que se instalam na memória como presságios, e entre as suas camadas oníricas, nenhuma me parece tão divina como aquela declamada em inception: "you’re gonna become an old man, filled with regret, waiting to die alone." essas palavras, ditas assim, sem piedade, como se anunciasse não um destino, mas uma maldição que todos nós, cedo ou tarde, tememos carregar.
nesses dias, essa frase têm me atormentado, junta de outras sentenças consideradas maldosas. desde sempre, é impossível não notar, pelo menos um pouco, a simbologia que a produção nos apresenta. esse vasto labirinto de sonhos, culpas e ilusões, não é, senão, o reflexo de um mundo onde a verdade, antanho firme e luminosa, se encontra em franco declínio. e há algo de profundamente humano nisso: quanto mais nós tentamos segurar o real com as mãos, mais ele se escorre como areia, assim nos relembrando de que, para o tempo, não existe misericórdia.
está presente em mim a sensação de que todos nós soamos como dom cobb: inseguros, assombrados pelo o que fomos e do que poderíamos ter sido. e, se me permito confessar, há dias em que sinto que meu próprio inconsciente é uma cidade em ruínas, erguida por memórias que não obedecem à razão, e que insistem em regressar como marés que desconhecem repouso.
em tempos antigos, poderia-se dizer que o espírito humano buscava a verdade com fervor quase sagrado. hoje, porém, parece que a verdade se retrai, tímida, soterrada sob camadas de versões, máscaras e narrativas que nos confortam mais do que nos esclarecem. e nisso reside a tragédia silenciosa: a queda não é brusca; é gradual. quase imperceptível. vamos aceitando pequenas mentiras até que, sem notar, nos tornamos nômades de nós mesmos.
quando penso naquela frase, sinto como se ela falasse não apenas de um homem, mas de uma era inteira. um tempo em que a coragem de encarar a própria consciência tornou-se rara, e o peso do não-enfrentamento nos empurra para um futuro onde talvez despertemos tarde demais.
e ainda assim, paradoxalmente, encontro uma centelha de redenção nessa melancolia. porque reconhecer esse declínio, avistar o abismo, é também um convite à reconstrução. talvez o verdadeiro totem — aquilo que nos mantém lúcidos — seja justamente essa inquietação que nos obriga a olhar para dentro, mesmo que as sombras ali pareçam antigas demais para tocar.
e aqui, ao fim de tantas reflexões, o que me resta é apenas a assunção de que o maior erro não é se perder nas rotatórias, mas sim de se habituar a eles. porque existe, em cada um de nós, uma pequena luz cintilante onde a verdade ainda pode ser vista, mesmo que enfraquecida. e talvez essa seja a nossa saída, aquela saída que nós nos tornemos aquele homem velho anunciado, aquele a ser consumido por arrependimentos que já não têm quem os escute.
dito isso, encerro está prece com um pedido a si:
que eu não desperte tarde demais. que nenhum de nós desperte tarde demais.